27-12-2011 Novas soluções, novos hábitos

Crise arrasa com os subsectores dos seguros automóvel e de poupança e beneficia os seguros de saúde.

A crise limita à partida o rendimento das famílias, colocando constrangimentos ao sector segurador, mas em alguns casos é também uma oportunidade para o lançamento de novos produtos e para a mudança de hábitos, como demonstram os ramos de Saúde e Automóvel, mas também na componente de Poupança.

Saúde - As oportunidades da crise
O sector dos seguros de saúde é a prova de que com as crises também surgem oportunidades. As dificuldades financeiras que o país atravessa têm levado o Governo a anunciar cortes em vários estores, entre os quais a saúde, o que pode tornar os seguros numa alternativa. Olhando para os números, é possível ver que este é um ramo que tem vindo a crescer nos últimos anos, ainda que o ritmo de crescimento tenha abrandado. Segundo os dados do Instituto de Seguros de Portugal, o sector cresceu 2,3% nos primeiros nove meses do ano em comparação com o mesmo período do ano anterior.

"O risco de não ter capacidade financeira para enfrentar uma doença grave e/ou prolongada é cada vez mais real. Mas não só: consultas de especialidade, exames e tratamentos poderão também exigir às famílias portuguesas um esforço financeiro impossível de comportar", refere Patrick Schwarz, administrador-delegado da Victoria Seguros, em entrevista ao jornal Expresso. Desta forma, a seguradora viu uma oportunidade de negócio a explorar e decidiu lançar novos produtos. Não só lançou um seguro de saúde que inclui um capital universal para todas as despesas de saúde como devolve 25% do prémio aos clientes que, durante um ano, não precisem de comparticipação de despesas.

Já a Multicare, percebendo as dificuldades que muitas famílias portuguesas estão a atravessar, resolveu incluir a cobertura de Protecção ao Pagamento dos Prémios de Seguro, que tem a particularidade de os segurados poderem beneficiar do seguro mesmo em caso de desemprego. Tentando abarcar as novas tendências, a líder do mercado em seguros de saúde, com cerca de 600 mil clientes, lançou também um seguro que permite ter acesso a uma rede de prestadores das chamadas medicinas alternativas. No chamado Plano Medicinas Integradas, é possível ter acesso a consultas e tratamentos, por exemplo, de Acupunctura, Homeopatia, Osteopatia, Quiroprática e Naturopatia, para consultas e tratamentos.

Automóvel - O impacto da queda do consumo
Um dos estores mais afectados pela crise, o ramo automóvel tem vindo a registar quebras assinaláveis nas vendas, como mostram os dados mais recentes divulgados pela da Associação Automóvel de Portugal (ACAP). Entre Janeiro e Novembro, o mercado de ligeiros de passageiros caiu 27,2% em relação ao mesmo período de 2010, ou seja, uma quebra de 53.151 carros novos. Perante este cenário, as perspectivas para o ramo do seguro automóvel não são animadoras.

No segundo e no terceiro trimestres, a produção de seguro directo no ramo automóvel registou uma pequena queda em relação ao mesmo período do ano anterior, mas as previsões apontam para uma deterioração ainda mais acentuada em 2012. Isto acontece não só devido um aumento de impostos sobre os veículos, mas também pela forte retracção do rendimento e do consumo das famílias.

Sabendo das dificuldades que o mercado atravessa, as seguradoras mais vocacionadas para este ramo estão a apresentar campanhas para conquistar clientes. Por exemplo, a OK Teleseguros, usa a expressão "Pronto a poupar" numa campanha que garante um desconto de 25%. Na mesma luta, outra das seguradoras low cost, a Logo, ataca o mercado com uma campanha que garante seis semanas grátis na compra de qualquer seguro automóvel.

Poupança - A remar contra a maré
Incentivar a poupança é um dos caminhos que o ramo segurador vai tentar seguir ainda que num contexto em que o rendimento das famílias está a cair e depois do fim dos benefícios fiscais dos PPR (Planos Poupança Reforma). As dificuldades são visíveis nos números que mostram uma queda de cerca de 40% na produção dos produtos de poupança, um comportamento que o presidente da Associação Portuguesa de Seguradores, Pedro Seixas Vale, não espera que se altere até ao final do ano.

"Isto é explicado pelo facto de o principal distribuidor de produtos financeiros das seguradoras serem os bancos, que neste momento estão a procurar canalizar as poupanças para os depósitos, atendendo às suas necessidades", disse em entrevista ao Jornal de Negócios, referindo-se a uma tendência que tem marcado o sector, de transferência dos PPR para depósitos a prazo. Esta tendência beneficia os rácios de capital dos bancos, mas demonstra também as dificuldades financeiras das famílias portuguesas.

"Os bancos orientam um pouco as pessoas também para outro tipo de produtos, como os depósitos a prazo, mas também se nota que as pessoas estão a fazer resgates por iniciativa própria", refere o presidente da APS, acrescentando que em muitos casos, os PPR chegam ao fim do prazo e as pessoas já não os querem manter. Apesar disso, Pedro Seixas Vale, diz que não há outra alternativa à poupança. "Quero o Estado, quer as empresas, quer os particulares, vão ter de o fazer", disse em Novembro numa entrevista ao Jornal de Negócios. O responsável da APS refere a necessidade de mudar os níveis de consumo, que são dos mais elevados da Europa, e de mudar hábitos. "A maior poupança dos portugueses é para a compra de casa. E isso vai com certeza ter de ser diferente."
Fonte: Jornal de Negócios, 23 de Dezembro de 2011

 

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